O RIO DE JANEIRO NASCE!
Francisco Claussen
A SUA INFÂNCIA
O Rio de Janeiro nasceu e cresceu como região portuária e comercial. No século XVIII, com o desenvolvimento da mineração, o seu porto tornou-se o principal centro exportador e importador para as vilas de Minas Gerais, por onde saiam ouro e diamantes e entravam escravos e manufaturados. Em 1763 a cidade transformou-se na sede do Governo Geral, em substituição a Salvador.
A República era uma menina, mas já se considerava uma garota maravilhosa, como acabou ficando conhecida até hoje. Já liberta da escravidão e do Império, tinha muita pressa em afirmar o Brasil no rol das nações modernas. No entanto, ainda por algum tempo teve que enfrentar e sanar as grandes doenças que a assolavam, e certamente procurou se adaptar aos novos tempos e teve pela frente muita frustração. Em 1900 ela ainda guardava o cunho desolador dos velhos tempos, com suas ruas estreitas, vielas sujíssimas, becos onde se acumulava o lixo. Mesmo as ruas principais, como Ouvidor, Ourives, Uruguaiana, Gonçalves Dias e 1º de março, eram muito pouco espaçosas. E as demais ruas mais distantes do centro, como as que cercavam o largo da Misericórdia, não passavam de vielas curvas e malcheirosas.
Nas ruas de movimento que ligavam os bairros, um par de trilhos já cruzava o calçamento; eram os bondinhos e alguns já elétricos. E a imprensa chegava a afirmar "que os nossos elétricos, sem o menor favor, eram os melhores do mundo." A maioria, no entanto, chacoalhando ferragens, velhos e incômodos, ainda eram movidos pelo tradicional par de burricos.
Dizia o Jornal Diário de Notícias em sua edição de 10 de outubro de 1892: ''Há 1 hora, pouco mais ou menos, saíram três bem trabalhados e cômodos bondes da frente do edifício do teatro Lírico e cerca de 10 ou 12 minutos depois entraram nas oficinas da companhia, á Rua Dois de Dezembro, fazendo nesse período de tempo o percurso que, pela tração animal, é feito em 25. O Senhor ministro da marinha saudou a Republica dos Estados Unidos da América do Norte, sendo também cumprimentados o Congresso Nacional, o exercito, a armada e a imprensa. "O brinde de honra foi erguido ao Sr. marechal Floriano Peixoto, vice-presidente da Republica."
"Tendo-se tornado justamente credora a diretoria da companhia Jardim Botânico de justos encômios, por ter conseguido estabelecer a tração elétrica em os seus bondes, o que é um grande melhoramento, não podemos, aplaudindo-a, esquecer o nome do seu digno gerente o Sr. Dr. Carlos Cintra, que foi um verdadeiro herói nessa campanha, que teve ante-hontem os aplausos de todos, e os dos seus dignos auxiliares, os engenheiros eletricistas drs. James Mitchel e Antonio Chermont, que muito concorreram para que fosse levado a efeito tão brilhante cometimento."
"Em alguns lugares por onde passavam os bondes foram fotografados, tendo-se-nos informado que as primeiras despesas feitas com a instalação dos aparelhos, apesar das diferenças de cambio, não chegaram a 200:000$000."
E finalizava a notícia desse Jornal:
"Durante o trajetos do bonde inúmeras pessoas aglomeravam-se nas ruas,
justamente curiosa de apreciar o novo sistema de tração, que, de futuro, há
de ser aplicado por força ás estradas de ferro.".
Continuando a nossa narrativa, via-se o leiteiro passar conduzindo uma vaca e um bezerro faminto, mas como o produto da vaca tinha seu destino certo, talvez só no fim do dia sobrasse algum leite para o bezerro. Mais adiante podia se ver também outro vendedor de aves, com as galinhas presas em cestos atados a um burro. Cabo de vassoura às costas para equilibrar a carga, vinha o cesteiro, o ceboleiro, o paneleiro e o verdureiro. As mulheres vendiam doces ou miudezas. A cidade era uma imensa feira.
O povo das ruas (cerca de 30% de negros, 30% de mulatos e o restante brancos) era constituído de hábeis cesteiros e vendeiros diversos. Toda essa gente precisava comer e tomar um gole para esquecer as próprias fadigas. E a par dos já numerosos botequins, começavam a surgir os quiosques, armações frágeis de madeira erguida em plena calçada. Vendiam, geralmente, café, cachaça, broas de milho, lascas de bacalhau, além de frituras, fumo e outras miudezas. Faz lembrar um pouco o nosso atual comércio de rua, os conhecidos camelôs, que buscam na rua o sustento da família. Não pagavam impostos e subornavam fiscais, mantendo sempre a arma de fogo sob o balcão para intimidar fregueses zangados ou fiscais zelosos em excesso. A higiene era nenhuma, os insetos infestavam o lugar, e nas proximidades os restos de comida atraiam os cães vadios. A sujeira dos quiosques emporcalhava a cidade, transmitiam doenças. Mas era nesses quiosques que o povo comia.
Comentava o jornalista e escritor Luiz Edmundo, no começo do século: "Em qualquer parte do mundo o quiosque é uma ligeira construção de estrutura graciosa e gentil... Entre nós o quiosque é uma improvisação achamboada e vulgar de madeira e zinco, espelunca fecal, empestando à distância e em cujo bojo vil um homem se engaiola, vendendo ao pé-rapado vinho, broas, café, sardinha... Contra o monstro do quiosque e sua freguesia reclamam as famílias, queixam-se os homens de negócio... É uma vergonha! A cidade ainda é um povoado africano! Precisamos acabar com essa miséria!".
"Mais um dia, os homens de negócio" resolveram por um fim naquela "vergonha". Munidos de latas de querosene e caixas de fósforos, destruíram muitos quiosques do Rio de Janeiro, impacientes com a atitude cautelosa do prefeito Pereira Passos, que vacilava em tomar medidas enérgicas contra aquele comércio tão popular quanto ilegal. Era uma reação típica das classes médias contra os "pés-rapados", contra aquele "povo africano", aonde o habitante dos cortiços vinham divertir-se um pouco e tomar a tradicional "caninha".
O tempo foi passando, e já em 1906, para os hábitos elegantes, a inovação mais importante no Rio de Janeiro, foi a Avenida Central, que logo desbancaria a Rua do Ouvidor, com quase dois quilômetros de comprimento e 33 metros de largura. Aos imponentes edifícios da nova Avenida, erigidos à moda dos "boulevards" franceses, deslocou-se rapidamente todo o comércio de maior luxo. As senhoras mais idosas podiam estacionar seus ¨tílburis¨ às portas das lojas, e as jovens, preferindo passear a pé, encontravam nos calçadões da Avenida espaço adequado para desfilar suas roupas, diante das mesas de café ao ar livre, O Rio de Janeiro começava a se mostrar como uma cidade que era para ser admirada, percorrida, descoberta. Seria a única maneira de afirmar que o Rio era incomparável!
Em 1934, o compositor baiano André Filho lança, para o carnaval uma das músicas brasileiras mais famosas de todos os tempos, transformada em Hino do Rio de Janeiro: Cidade Maravilhosa (cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil).
O estrangeiro que visitasse agora a nossa Capital já teria na Avenida um belo exemplo do progresso material que o Rio de Janeiro se sentiu resolvido a realizar. Estava atenuada, assim, a exclusividade de sedução que só a natureza propiciava aos turistas que nos visitavam.
Uma das obras de que também se orgulhávamos, e ainda hoje se orgulha, é o Mosteiro de São Bento, que foi fundado em 1590 por monges vindos da Bahia. Esse Mosteiro beneditino foi construído a pedido dos próprios habitantes da recém fundada cidade de São Sebastião.
Em pleno Centro da grande metrópole, conserva-se aqui um lugar de silêncio, paz, oração e trabalho, que se traduzia em diversas atividades mantidas regularmente. As duas principais, até hoje, são as celebrações diárias do Ofício Divino e da Missa, com canto gregoriano. Além disso, funcionam dentro da Abadia: o Colégio de São Bento, as Edições Lumen Christi, a Faculdade de São Bento, a Casa de retiros de Emaús e a Obra Social São Bento. O Mosteiro mantém também duas casas de retiro e encontros: a Casa de São Bento, no Alto da Boa Vista, e o Sitio Seio de Abrahão, em Teresópolis.
Em pouco tempo, o novo traçado das avenidas do Rio, com o calçamento de macadame, permitiu a proliferação da mais nova conquista da época: o automóvel. As senhoras ricas abandonavam os ¨tílburis¨ e passavam a fazer compras a bordo dos automóveis com motorista. Em 1908 já havia na cidade catorze garagens. A nostalgia parisiense tornava-se realidade de uma Metrópole brasileira que mais parecia um pedaço da Europa. Além de magazines como a Colombo, do mesmo dono que a afamada Torre Eiffel, da Rua do Ouvidor, a Avenida Central abrigava também poderosas empresas, além de imponentes sedes de grandes jornais, como o do Comércio e do Brasil. Quem percorria nessa época a nova Avenida, já se imaginava percorrendo a espinha dorsal do mundo das altas finanças, da cultura e dos passeios elegantes.
Luxo para poucos, a máquina de quatro rodas punha na boca do mundo uma palavra francesa: "Chauffeur". Em 1903, seis automóveis circulavam pelas ruas da Capital Federal, e três anos depois seu número já atingia 35. As rodas originalmente de borracha maciça, começavam a ser substituídas por pneumáticos. O jornal O País já opinava que "com o asfaltamento das ruas é possível que aumente a utilização desses veículos".
O automóvel, no entanto, ainda representava um sério inconveniente. Pouquíssima gente sabia lidar com ele, um engenho "desastroso e adaptando-se com dificuldade em meio a estouros e estampidos..." (revista Fon-Fon). Os motoristas que porventura apareciam, quase sempre de terras distantes, tinham a garantia de um emprego bem remunerado e recebiam tratamento bastante honroso. Os primeiros automóveis, é claro, eram privilégio de uma pequena elite. O povo, em meio a vaias e aplausos, assistia com desconfiança aqueles soberbos desfiles de luxo e modernidade. Apesar da precariedade dos carros e da ausência de vias adequadas, o clima era de euforia entre os amantes do novo veículo. Nos circuitos de Itaperica e São Gonçalo, os ases se revelavam a 50 km por hora. Eram as primeiras corridas.
Cabe registrar aqui uma grande inovação que veio beneficiar o desenvolvimento da cidade. A instalação do sistema de bondes elétricos, como comentado pelo jornal Diário de Notícias, em oito de outubro de 1892. "Foi inaugurada ontem a tração elétrica nos bondes da Companhia Jardim Botânico tendo á inauguração assistido o Sr. marechal vice-presidente da Republica, os membros dos ministérios, representantes da diretoria d'aquella companhia, da imprensa e grande numero de convidados".
Vale ressaltar que em 1934, como já registramos anteriormente, o compositor baiano André Filho lançou, para o carnaval uma das músicas brasileiras mais famosas de todos os tempos, transformada em Hino do Rio de Janeiro: Cidade Maravilhosa (cheia de encantos mil, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil).
OS NAVIOS PREFERIAM PASSAR AO LARGO DO RIO DE JANEIRO
O sonho da Capital Federal de se constituir numa Metrópole à européia, mundialmente admirada, terminava, no entanto abruptamente no cais do porto. Claro que havia as belezas naturais da Baía de Guanabara que os estrangeiros admiravam de longe, no convés de seus navios, mas não desembarcavam. Vista a paisagem, sem colocar os pés em terra, seguia viagem rumo a Buenos Aires. No conceito internacional embora o Rio de Janeiro fosse considerada uma cidade linda, os turistas costumavam aprecia-la a bordo de seus navios ancorados na Baia de Guanabara. Após algum passeio marítimo rumavam direto para Buenos Aires.
Nos primeiros anos do século, já não podia haver dúvida: o Rio era uma cidade terrivelmente insalubre, e a tarefa mais importante do Governo teria que ser a de torná-la habitável o ano todo. Contando com um erário público relativamente bem abastecido e as finanças saneadas por seu antecessor Campos Salles, o novo presidente Rodrigues Alves, que assumira o cargo em novembro de 1902, tratou logo de dar curso aos seus planos de reformas para os serviços de higiene do Rio de Janeiro. Faltavam apenas os homens dispostos a seguir a política do presidente. E ele os encontrou. Em janeiro de 1903, Pereira Passos aceitava sua nomeação para prefeito do Rio, e em março o Dr. Oswaldo Gonçalves Cruz assumia o cargo de diretor da Saúde Pública.
Logo o Rio de Janeiro iria se
transfigurar com uma rapidez vertiginosa: simultaneamente às campanhas de
saneamento, novas avenidas seriam rasgadas e antigos quarteirões demolidos. Em
1906, Rodrigues Alves passaria a seu sucessor, Afonso Pena, uma nova cidade.
O DIA DA REVOLTA DA VACINA
A 3l de outubro de 1904, por iniciativa de Oswaldo Cruz, o Congresso aprovou a lei que tornava obrigatória a vacina contra a varíola. Aplicada com êxito na Europa, a vacina era desconhecida do povo brasileiro e encarada com desconfiança. A imprensa atiçava os ânimos, fazendo correr boatos que a vacina, em vez de imunizar, provocaria a varíola. E as Brigadas Sanitárias, acompanhadas de policiais, entravam nas casas e vacinavam seus ocupantes à força.
O descontentamento popular era muito forte, e no dia 10 de novembro explodiu numa revolução. Por mais de uma semana, as ruas centrais da Capital Federal encheram-se de barricadas. Bondes eram incendiados, lojas depredadas e saqueadas, (igualzinho ao que se continua a praticar em várias capitais do país) A Escola Militar da Praia Vermelha aliou-se ao povo, comandada por altos escalões do Exército. Os alunos saíram armados à rua, enquanto o prédio era bombardeado por navios fiéis ao governo.
Ameaçado, o Governo agiu rápido e com dureza. Tropas leais foram chamadas para atacar os revolucionários e percorreram os cortiços, capturando não apenas os que haviam participado do motim, mas todos aqueles encontrados desocupados. E enfiaram-nos todos, sem ouvi-los, em porões de navios, despachando-os para o Território do Acre, que o Brasil acabava de conquistar da Bolívia. Iria terminar, assim, o levante positivista. Começaria a vacinação em massa da população carioca, e em alguns meses a varíola desapareceu do Rio.
O Levante da Escola Militar mereceu a
seguinte nota de O Estado de São Paulo, em 16/11/1904:
"Rio, 15. - Às sete horas da noite o General Costallat, comandante da
Escola Militar, soube que os respectivos alunos tinham arrombado a
arrecadação, retirando carabinas e munições. O general pretendeu impedir
esse ato, mas inutilmente. Mais tarde apareceu o General Travassos e disse que
ia assumir o comando como chefe do pronunciamento da mocidade militar. O General
Costallat respondeu-lhe que fosse receber o comando das mãos do Governo. Quanto
a ele, Costallat, considerava-se prisioneiro. O General Travassos levou-o até o
bonde e na despedida o General Costallat disse: "Seja feliz"!" Na
Escola Militar achavam-se nessa ocasião os Srs. Deputados Alfredo Varella e
Barbosa Lima e o Senador Lauro Sodré. (...) A Escola Militar colocou-se no fim
da Rua da Passagem e as forças governantes concentraram-se no Catete até a
Praça José de Alencar. (...) A polícia (...), depois de grande tiroteio,
conseguiu assaltar as trincheiras dos alunos (...). "As baixas são
superiores a 200".
Essa revolução relâmpago, "sui generis", faz-nos retornar ao clima de terrorismo a que ficamos sujeitos no início do III milênio, no qual a varíola que tanto descontentamento popular promoveu, é tida atualmente como uma das armas apontadas para a humanidade, caso ela seja utilizada pelos terroristas.
Em 1907, concluídas as reformas, saneada a cidade, o Distrito Federal já podia ser considerado um cartão de apresentação da República e a sala de visitas do país. Faltava apenas atrair os estrangeiros, dar uma festa, oferecer ao mundo uma recepção, que lhes mostrasse a nova face da capital brasileira. E essa festa foi caracterizada pela Exposição Nacional de 1908, entregue à visitação pública a 11 de agosto desse ano, na Praia Vermelha. Em menos de um ano, construíram-se imponentes edifícios, para abrigar exibidores da produção econômica brasileira. Montaram-se dois restaurantes, um teatro, cervejarias e cafés, e uma pequena via férrea, para que o público pudesse locomover-se em trenzinhos. Visitantes ilustres, como os secretários de Estado norte-americano, embaixadores de diversos países e turistas em geral, puderam, em primeiro lugar, ver a capital moderna e ajardinada. Depois, na Exposição propriamente dita, travar contato com os numerosos produtos agrícolas (alguns, como a castanha do Pará, (bem exóticos para os olhos europeus) disponíveis no país, e ainda a indústria madeireira, bem como os melhores exemplares de criação do rebanho nacional.
SOCIEDADE PATRIARCAL
Em tempos que já se foram, seguindo a tradição da época em que os portugueses se instalaram no Brasil, a família não se compunha apenas de marido, mulher e filhos. Era um verdadeiro clã, incluindo a esposa, eventuais (e disfarçadas) concubinas, filhos, parentes, padrinhos, afilhados, amigos, dependentes e antigos escravos. Uma imensa legião de agregados submetidos à autoridade indiscutível que emanava da temida e venerada figura do patriarca. Temida porque possuía o direito de controlar a vida e as propriedades de sua mulher e filhos; venerada, porque o patriarca encarnava, no coração e na mente de seus comandados, todas as virtudes e qualidades possíveis a um ser humano.
E quem era esse patriarca orgulhoso, a quem se submetiam tudo e todos? Era o grande senhor rural, proprietário de terras incomensuráveis, onde se plantavam as bases da economia brasileira: café, cacau, cana de açúcar e outras grandes lavouras. Era ele que desde os tempos coloniais e imperiais presidia a única ordem perfeita e integra da sociedade brasileira: Era a organização familiar.
A família, a grande família patriarcal, ocupava todos os espaços. E o que não fosse provido por ela representava um corpo estranho e indesejável. Na casa-grande, coração e cérebro das poderosas fazendas nasciam os numerosos filhos e netos do patriarca, travavam-se os destinos da fazenda e educavam-se os futuros dirigentes do país. A fortuna do clã e suas propriedades se mantinham assim indivisíveis sob a chefia do patriarca.
E a família era o mundo do homem por excelência. Crianças e mulheres não passavam de seres insignificantes e amedrontados, cuja maior aspiração eram as boas graças do patriarca. Nesse universo masculino, os filhos mais velhos também desfrutavam imensos privilégios, especialmente em relação a seus irmãos. E os homens em geral dispunham de infinitas regalias, a começar pela dupla moral vigente, que lhe permitiam aventuras com criadas e antigas escravas, desde que fosse guardada certa discrição, enquanto que às mulheres tudo era proibido, desde que não se destinasse à criação.
Por mais enaltecido que fosse o papel de mãe, um obscuro destino esperava as mulheres. Uma senhora de elite, envolta numa áurea de castidade e resignação, devia procriar e obedecer. Com os filhos mantinha poucos contatos, uma vez que os confiava aos cuidados de amas-de-leite e governantes. Sobravam-lhe as amenidades, as parcas leituras e a supervisão dos trabalhos domésticos.
A "mãe preta" amamentava e criava muitas das crianças nascidas na casa-grande. Laços recíprocos de afeição ligavam-nas à família, e seu nome estava já incluído no testamento do patriarca. O escravo liberto, após dezenas de anos vividos à sombra de seu senhor, já não podia estar longe do "Nhonhô" e da "Iaiá". Como a "mãe preta" adotara o sobrenome de seus antigos amos, com eles partilhava do mesmo teto, que abrigava também um dos filhos bastardos que o chefe da família houvera por bem, tomar a seus cuidados. E ainda um negrinho muito vivo companheiro de folguedo dos "nhonhozinhos" que acabava indo viver na casa-grande. Eram todos agregados da família. Da mesma forma que um parente pobre que um belo dia chegara como visita. Estava lá há mais de dez anos e ninguém estranhava sua presença. Como a esposa, os filhos e os demais agregados, submetiam-se à dominação do patriarca.
Nos primeiros anos da república, no entanto, a família patriarcal começava a mostrar sinais de fraqueza. Não que ela fosse incompatível com o novo regime. Eram as cidades, as novas profissões, a luz elétrica, os bondes, os imigrantes, as lojas comerciais, as indústrias, que começavam a ameaçar o patriarca. Antes ele podia manter seu extenso clã no mais completo isolamento. Seus agregados, famílias inteiras submetidas a ele, podiam ser ricos ou pobres, não importava, pois eram todos igualmente da grande Família. Trabalhavam em suas terras e obedeciam. Pouco a pouco, entretanto, o patriarca se via obrigado a relacionar-se com os outrora indesejáveis elementos "de fora".
Os filhos eram matriculados na Faculdade de Direito. Um dia, tornou-se mais conveniente que seus primogênitos se casassem, não mais com aquelas obscuras primas remediadas, mas com as filhas de riquíssimos banqueiros da capital. Ele próprio se via forçado a ampliar seus negócios nos centros urbanos, para que seu patrimônio não sucumbisse à nova maré do progresso. Ele teria de aplicar dinheiro em outras atividades, além da fazenda. Chegava também o momento de abandonar a casa-grande e se mudar para um palacete na Capital. Às vezes era possível levar junto um parente ou outro, mas o grosso dos leais agregados ficava por lá mesmo. E se tornavam os "primos pobres" do interior, que, com o tempo, ficariam cada vez mais pobres e menos primos.
O império do patriarca começava a se reduzir. Ou melhor, mudava de natureza: nesse momento ele era um industrial, um pioneiro no melhor estilo capitalista, um banqueiro, um grande negociante e também um fazendeiro. O tempo, como se observa, é implacável. Como um rolo compressor foi aparando arestas, abrindo novas estradas e acabou neutralizando aquele tipo de família exclusivista, dobrada sobre si mesma, e que embora fosse o sustentáculo do Estado, impedia que a população do Brasil, tão escassa e quase nômade naquela época, se pulverizasse pelo país.
Vale acentuar que no início do século XX, o homem que se prezasse era bem falante. A oratória compunha a personalidade masculina do mesmo modo que o fraque, o chapéu de coco, o cravo na lapela e o soberbo bigode - tudo isso acompanhado, naturalmente, de um título de doutor... O termo "seu doutor" integrava o restrito exército de bacharéis formados pelas faculdades de Direito, Engenharia e Medicina. Todas elas, e não só as de Direito, eram terrenos assolados pela retórica, a arte de bem falar. Isso, aliás, é fácil de entender, já que o persuadir, o convencer e o dissuadir representavam as chaves mestras da política, do mando, do governo, do controle. E eram sempre os bacharéis que assumiam as posições de controle no Estado, nos negócios e na família. Com eles, a arte da retórica sempre transbordava os paços acadêmicos e as assembléias políticas para invadir todos os recantos da sociedade. Um retrato irônico da oratória brasileira durante a Belle Époque chegou a ser feito pela revista Kósmos, em 1906:
"Vede-o, austero, severo, sério,
braço esticado no ardor do improviso, olhos cerrados pela contenção do
espírito, afirmando a dedicação a um partido ao qual talvez tenha de trair
amanhã (observe-se que a política não mudou até hoje), ou afirmando o seu
nobre desejo de morrer pela Pátria, quando talvez o seu único sincero desejo
fosse o de repetir a galantina de macuco que foi servida... A oratória
política da sobremesa é hoje uma instituição indestrutível. É em banquetes
que os presidentes eleitos apresentam a sua plataforma, é em banquetes que se
fundam partido, e é em banquetes que se fazem e desfazem ministérios. São
banquetes fartos, magníficos, em que se gasta dinheiro a rodo. (e isso não é
de admirar, porque é sempre o povo quem continua a pagar o pato... ou o peru).
O champagne espuma nas taças. Os convivas, encasacados e graves, fingem
prestar atenção ao programa político do orador, mas estão realmente
namorando o prato de fios de ovos E o orador invoca os "fundadores da nossa
nacionalidade", os "sagrados princípios de Oitenta e Nove", e
declara solenemente que o Brasil (...) será em breve, graças a uma política
energética, o primeiro país do mundo, porque ele, orador, está disposto a dar
por isso a sua tranqüilidade, o seu saber, o seu estudo, a sua saúde, a sua
vida! E senta-se suado e comovido, dizendo ao vizinho da esquerda: "Que
tal"? Falei bem? Passe-me aquele prato de marrons glacês...".
Existiam ainda numerosos outros tipos
de oradores, como aqueles que se apresentavam nos grêmios literários e nos
clubes. Geralmente era um moço pálido, elegante e poeta, que mandava versos
aos jornais, e tinha cinco ou seis namoradas. Era de todos os sócios do clube,
o que mais docemente sabia falar ao coração das moças. Tinha um madrigal para
cada menina; recitava versos entre uma polca e uma valsa, encostado ao piano,
com os olhos pregados no teto da sala e um sombrio desengano refletido na face.
À meia noite, quando o presidente do clube convidava as senhoras para a
"modesta" ceia, o orador retorcendo o curto bigode frisado, temperava
a garganta com um cálice do Porto, e encetava o seu infalível brinde à mulher
mãe, à mulher esposa, à mulher filha, essa trilogia divina que é a trípode
do amor e o triângulo da Crença. O brinde era sempre o mesmo, mas nunca
deixava de comover o auditório.
Havia, ainda, o orador dos Grupos e
dos Cordões, que embora do mesmo gênero fosse de espécie diferente. Este tipo
de orador já era mais pernóstico e mais "art nouveau", no trajar e
no falar, como janota e como orador. Era o orador das pândegas alegres, em que
o piano alternava com o violão e a polca militar com a modinha. Era o Lúcifer
das Eloás de cabelo frisado e flor atrás das orelhas. Era o Don Juan das
Elviras de vestido de chita e óleo nos cabelos. A sua imensa gravata de seda
vermelha em laço de borboleta era todo um poema, e sua cabeleira lustrosa,
dividida em pastas, era todo um programa. A bebida do orador político era o
champanhe, a do orador dos clubes vinho do Porto e a deste orador era a cerveja.
No fim da ceia, eis que se levantava inspirado: fixava o punho esquerdo sobre a
mesa, metia a mão direita no bolso da calça e soltava o verbo!
O varão do início do século XX,
mundano e elegante, homem bem nascido desfrutava as delícias que o novo século
oferecia. Homem que se prezasse convivia o Café Paris, o mais chique da Capital
Federal. Mais chique e melhor freqüentado, onde as jovens mulheres faziam-se
desfilar. Eram atrizes que chegavam, desciam dos carros, atravessavam a sala do
café que ia dar no restaurante, num halo de elegância e perfume; eram a
grandes "cocotes" acompanhadas de velhos abrilhantados, de polainas
brancas e monóculo; eram diretores de jornais, banqueiros, senadores e
deputados, que iam trincar um "poularengo". Isso tudo era chique e
elegante.
Já não bastava, no entanto, aos varões exibir tão somente sua oratória; era preciso também cultivar um belo corpo. Até o fim do século XIX, o homem de boa estirpe não cuidava da cultura física. Expor o tórax seria considerado vulgar e indecente. E as pernas só vinham à luz nos banhos de mar ao amanhecer, como os médicos prescreviam. A pele clara e os músculos frágeis eram apanágios do varão que mandava. A ginástica era prejudicial à saúde. Nas cidades, os homens rudes do povo conseguiam ocupação fácil como carregadores. E seus músculos fortes e pele tisnada de sol aparentavam-nos aos escravos, lavradores e marujos. Mas já em 1900, ao iniciar-se o século, a nova consciência sanitária despertava a atenção para questões de higiene e saúde. Exercícios físicos jogos recreativos foram introduzidos no Brasil por educadores anglo-saxões. E começaram a surgir clubes de halterofilismo. Agora a cultura, a inteligência e o espírito já não bastavam para valorizar um homem. Os jovens de elite passaram a cultuar a bela estampa e exibi-la com orgulho e já sem perigo de escândalo. Hoje, como se observa, até as mulheres são fãs da cultura física, como se verifica nas várias academias existentes.
RAINHA DO LAR, SÚDITA DO HOMEM, ESCRAVA DA MODA
No início do século XX, mulher distinta jamais saía de casa sozinha, fosse para as compras, fosse para o cinema; a companhia do marido, de um irmão, uma senhora idosa ou um filho era indispensável. Fumar ou cruzar as pernas, nem pensar, era simplesmente escandaloso. Rir, falar alto ou usar gíria resultava em imediata e implacável condenação. Tocar violão, balançar os braços ao caminhar ou recostar-se na cadeira revelavam má educação. E, importante, para ser considerada bela, era imprescindível fugir do sol: a alvura da pele devia ser mantida a qualquer custo, e não se podia contar com o disfarce do pó de arroz - era mal visto em público. Os lábios e as espáduas deviam ser róseos, os cabelos finos e longos, os contornos do corpo redondos e macios, o olhar meigo e atento.
Nas cabeças femininas, sob os chapéus de fitas e plumas coloridas, não se esperava encontrar muita coisa além de esculturais penteados obtidos com a ajuda dos ferros de frisar. A missão da mulher era uma só: "fazer os grandes homens", como esposa e como mãe. Pretender seguir os passos dos homens, aprenderem o que eles sabiam e disputar suas funções, privando o lar de sua deusa protetora, que confortava nas dores e desfalecimentos, era contrariar a própria natureza feminina, na qual o altruísmo preponderava. Entre as limitações impostas e os louvores à natureza feminina, o que restava à mulher?
O cotidiano para as senhoras da boa sociedade urbana, seria mais ou menos assim: Às sete horas da manhã a família tomava o seu desjejum, servida por uma copeira branca, e que se compunha de café com leite, bolos e biscoitos. Era elegante ostentar empregadas brancas, de preferência louras, no serviço da casa. Os filhos do casal permaneciam sempre silenciosos, limitando-se a falar somente quando solicitados. Passariam o dia na escola. Até o almoço, às 10 horas, a dona da casa dispunha, no entanto, de tempo suficiente para folhear figurinos de moda.
Recebia em casa a costureira e já tendo delegado à governanta a fiscalização da limpeza e da arrumação, assim como a conferência do rol de roupas e a preparação do cardápio semanal, podia dedicar-se a bordar monogramas na roupa branca da casa ou a ler algum romance francês. Depois do almoço, receberia para o chá das 13 horas as damas da sociedade, que faziam tricô e crochê para a quermesse da igreja. É bem possível que nesse momento muitas fofocas e "disse me disse" aparecessem.
Após o jantar, às 17 horas, a fatigada anfitriã repousava, pois à noite provavelmente receberia visitas de alguns parentes. Entre um assunto e outro, haveria quem tocasse piano, cantasse ou mesmo declamasse poemas. O certo, porém, é que em raros momentos a dona da casa teria gozado de algum conforto, pois, além de todas as restrições à sua iniciativa e liberdade, ainda existiam aquelas ditadas pela moda.
"O espartilho parecia inspirado na armadura medieval, mas era um tormento recebido com volúpia. (...) Se a mulher era gorda com pretensão a elegante, começava a comprimir a abundância dentro do estranho tormento. (,) Depois de cingido e apertado, "madame" comparecia confiante e risonha a uma festa onde não podia comer nem tomar um copo de água porque a compressão do aparelho digestivo não lhe permitia tal liberalidade. Tinha de debicar como passarinho. (...) Não podia curvar-se. (...) Se rebentasse o cordão, aconteceria algo semelhante ao estouro de um pneu". (Barros Ferreira, historiador).
Cinturinhas de marimbondo, traseiros
em tufo, eram assim que se apresentavam as mulheres naquela época. Diziam
cronistas dessa época:
"Os figurinos vinham da França.
(...) Havia (...) duas constantes (na moda feminina) no começo do século. Uma
era o espartilho "devant-droit". Era uma armação de fitinhas de aço
ou de barbatana, sustentando um tecido elástico de seda, dividido nas costas e
na frente e ajustadas por um conjunto de furos em que passavam cordões
apertados. (...) Toda essa peça tinha por fim forçar a posição da mulher,
dar realce aos seios e comprimir o ventre (...), o perfil podia ser traçado por
uma linha vertical, do seguinte modo: da cintura para cima, o corpo era
projetado para frente da linha, e da cintura para baixo era comprimido para
trás. (...)".
Outras constantes do vestuário
feminino no começo do século eram as comentadas por dois outros cronistas da
época:
"A senhora apanhava a saia por trás com a mão, mais ou menos à altura da coxa, e mantinha-a sempre segura, num gesto elegante, que evitava que a cauda fizesse a varredura das ruas. Além de ter de segurar a saia, toda a senhora devia trazer consigo ou sombrinha ou guarda-chuva, pequena bolsa com dinheiro e o lenço, sempre na mão". (Jorge Americano, cronista).
"Não há pintura de olhos, de lábios, nem de rosto. As mulheres (...) são figuras de marfim ou cera, (...) evadidas de um cemitério. Quando passam em bando, lembram uma procissão de cadáveres" (Luiz Edmundo.cronista)
E além de suportar os espartilhos,
que lhe atrofiavam as costelas e espremiam os rins e o fígado, uma esposa
normal teria um parto uma vez por ano. O pai, orgulhoso reprodutor, festejava
cada nascimento, especialmente se o recém chegado fosse do seu mesmo sexo. A
mãe, por mais esgotada que estivesse, carregando dez filhos nas costas aos 25
anos, enfrentava passivamente cada nova gravidez, cortando e bordando as
roupinhas da criança. Vestida no seu "fardão", cheia de enjôos e
"desejos", era tratada quase como uma doente. Pretendia-se amamentar -
o que não era muito comum entre as mulheres de elite, que transferiam essa
função às damas de leite -, cuidava de tomar certos preparados, como o
"Vinho Biogênico" ou o "Xarope Vitaminol", para garantir
mais quantidade e a melhor qualidade de seu leite. Caso contrário, o grande
trabalho era encontrar uma ama. Porque o leite era de fato um problema.
Comercializado sem as mínimas condições de higiene, tinha certamente uma boa
parcela de responsabilidade nos altos índices de mortalidade infantil.
O NASCIMENTO DOS GRANDES JORNAIS
Pequenas oficinas de tipografia começavam a comprar novas máquinas e iam tornando-se grandes empresas. Escritórios de jornalistas transformavam-se em equipes de repórteres, fotógrafos, redatores e colaboradores. Esses jornais eram vendidos a assinantes. Só era possível comprar exemplares avulsos em suas redações ou oficinas.
A redação de A Cidade do Rio, jornal abolicionista que o mulato José do Patrocínio fundou em 1887, por exemplo, era formado por um grupo de amigos instituais e políticos, que levavam a mesma vida boêmia de seu diretor. Na eminência da Abolição, esse jornal era disputado por comerciantes e funcionários públicos. Já nessa época, os escritores mais célebres ganhavam o seu sustento nos jornais, já que poucas eram as editoras, pois a maioria dos livros era composta na Europa.
No começo do século XX, os grandes jornais já possuíam prédios próprios nas ruas centrais da Capital Federal, onde se alojavam os dois maiores jornais do país: o Jornal do Comércio, fundado em 1827, e a Gazeta de Notícias, de 1874. As relações entre os órgãos de imprensa e os grupos políticos acompanhavam as contradições de um sistema no qual a palavra escrita era de grande importância na formação da opinião pública, que não dispunha de canais de participação democrática.
Caricaturistas de talento como Raul
Pederneiras, K.Lixto e J.Carlos tornaram-se a principal atração de revistas
humorísticas e mundanas, das quais a mais famosa era o Fon-Fon! que começou em
1907 e tornou-se um reduto dos simbolistas. Careta, para onde convergiram os
parnasianos, constituídos em 1908, e O Malho, constituíam as demais
publicações. Ao lado dessas, existia ainda O Tico-Tico, com personagens
Reco-Reco. Bolão e Azeitona, revista essa criada em 1905 pelo desenhista
Ângelo Agostini e que ganhou imediatamente a preferência do público infantil.
O JOGO DO BICHO
Foi em 1892 que o barão João Batista Viana Drummond, amigo de dom Pedro II, teve um grande problema financeiro, pois com o advento da República, deixara de receber os 10 contos de réis da subvenção que se acostumara a ganhar durante a Monarquia. Embora ainda muito rico, dono do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, no bairro de Vila Isabel, não tinha investimentos em outras áreas.
Um mexicano bastante astuto, Sr. Manuel Ismael Zevala, que havia trazido para o Rio, sem muito sucesso, o jogo das flores lhe deu a idéia de que seria mais lucrativo investir no jogo do bicho. Assim, a partir do dia 3 de julho de 1892, os visitantes que cruzavam o portão de entrada do Jardim Zoológico passaram a receber um papel com a indicação de um animal, dentre os 25 que havia naquele Zoológico, para o sorteio que poderia proporcionar uma quantia vinte vezes superior a que foi paga pelo ingresso. Levava o prêmio quem tivesse designado no bilhete o nome e o desenho do animal que no final era revelado em um quadro no alto de um mastro, na entrada do Jardim.
O Jornal do Brasil, em uma nota
especial do dia 4 de julho de 1892, noticiou que a empresa do Jardim Zoológico
realizara no dia anterior um magnífico passeio campestre a sua fundação,
situada no pitoresco bairro de Vila Isabel. A visita realizada em bondes
especiais levou os convidados e representantes da imprensa àquele local e
depois de o visitarem e constatarem suas melhores condições, como os jardins,
as gaiolas em que se achavam os animais, deram um lauto jantar.
O 1º brinde foi levantado pelo Sr. Sergio Ferreira ao Senhor barão de
Drummond, que em seguida com toda a gentileza brindou à imprensa.
Como meio de estabelecer a concorrência pública, tornando freqüentado e
conhecido aquele estabelecimento, a empresa criou um prêmio diário, que
consistia em tirar à sorte dentre 25 animais do Jardim Zoológico o nome de um,
que seria encerrado em uma caixa de madeira às 7 horas da manhã e aberto às 5
horas da tarde, para ser exposto ao público. Cada portador de entrada com
bilhete que tivesse o animal figurado ganharia o prêmio de 20$. Informava o
Jornal que o sorteio realizado no dia anterior, o prêmio recaíra no Avestruz,
que dera uma recheada poule de $460000.
O PASSADO DO RIO DE JANEIRO
Uma cidade é muito mais do que uma aglomeração humana num determinado espaço geográfico. É um entrelaçamento de símbolos que dão sentido aos prédios, casas, ruas, viadutos, praças e monumentos construídos por quem vive ali. Algumas são mais do que isso. Ao longo de sua história, transcendem esse espaço e passam a encarnar o que todo um país acredita ter de melhor, de mais belo e promissor. Na definição do historiador italiano Giulio Argan, essas são cidades-capitais. Um status que pode ou não corresponder ao papel de capital do país, mas obrigatoriamente pertence a uma cidade vital na construção da identidade nacional. No Brasil, a melhor tradução desse conceito é o Rio de Janeiro, que só tem freqüentado o noticiário nacional por força de suas mazelas, mas continua sendo a melhor tradução da alma brasileira aqui e no exterior, com suas belezas e também com suas chagas.
A cidade fervilhava de idéias. Na Livraria José Olympio, no centro da cidade, batia ponto todas as tardes uma plêiade formada por escritores da fina flor da literatura brasileira moderna - entre eles, o alagoano Graciliano Ramos, o pernambucano Manuel Bandeira, os mineiros Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, a cearense Rachel de Queiroz. "Como Paris, o Rio de Janeiro é o centro cultural e a capital literária do país, condição a que chegou como sabemos, pela evolução natural e sem imposições", escreveu na década de 50 o crítico Afrânio Coutinho.
Nesse Rio de Janeiro tudo parecia harmônico e charmoso, embora o esgoto fosse jogado in natura no mar, com transtornos óbvios para a vida dos banhistas.
O Rio simbolizava, desde essa época, um projeto de nação. Os poderes extraordinários conferidos a Pereira Passos, bem como a seleção das obras realizadas no Rio, eram evidências do processo de reiteração pela República do papel de vitrine e espelho da nação que costuma caber às cidades-capitais.
Um segundo grande investimento na cidade foi feito durante o Estado Novo - mais uma vez num momento de construção de um novo projeto de país, sob a égide então modernizadora do intervencionismo estatal. A elite carioca, que participara ativamente da construção desse projeto de país, acreditava piamente que nada mudaria com a transferência da capital. E a realidade imediatamente após a concretização da mudança, em 1960, pareceu confirmar essa crença - mesmo porque o governo federal continuou, na prática, a funcionar na cidade até o fim dos anos 60. Além disso, nesses tempos conturbados pelo golpe militar de 1964, o Rio (então cidade-estado da Guanabara) teve seu governante mais empreendedor. Carlos Lacerda completou o ciclo de modernização do Rio, num movimento que tem sua mais perfeita tradução no Aterro do Flamengo. Só quando foi feita a fusão, em 1975, a elite carioca começou a despertar, por força do choque cultural entre a mentalidade provinciana dos políticos fluminenses e a classe dominante carioca, que continuava pensando só nas grandes questões nacionais. "A partir de 1960, tornou-se necessária a organização de estratégias de desenvolvimento locais, mas essas ficaram bastante prejudicadas pela ilusão de que a cidade continuaria a ser capital de fato", diz o economista Mauro Osório, da UFRJ, que chegou a lançar o livro "Rio Nacional, Rio Local", baseado em sua tese de doutorado.
É isso que está mudando agora. Pela primeira vez em muitos anos havia gente pensando, discutindo, debatendo a cidade. Esse era o lado positivo da discussão sobre a disfunção, que devolveria ao Rio o status de cidade-estado. A reflexão sobre as perdas que o Rio de Janeiro teve com as duas mudanças - de capital do país a cidade-estado da Guanabara e capital do estado do Rio - foi uma oportunidade de ouro para buscar novos caminhos. Mas não para tentar reviver o passado. Apesar dos números e imagens que mostram a deterioração da qualidade de vida no Rio de Janeiro nas últimas décadas, é um erro pensar que existe uma solução para a cidade que não inclua sua integração na região metropolitana. A disfunção não é solução. Na equação de alguns dos mais graves problemas das metrópoles, como segurança, saneamento, lixo, saúde, habitação e transporte, e notadamente a segurança pública, exigem iniciativas locais, sendo também fundamental a articulação entre os municípios. A socióloga Ermínia Maricato, secretária executiva do Ministério das Cidades e uma das maiores especialistas do país em habitação lembra que parte do problema das favelas se deve à precariedade do sistema intermunicipal de transporte. "Se houver como ir de casa para o trabalho de maneira rápida, segura e barata, pode-se morar a até 100 quilômetros de distância", dizia. Além disso, ao jogar na disfunção todas as esperanças de uma solução para a cidade, jogava-se para um futuro incerto o início do grande esforço necessário para buscar novos caminhos para o Rio - o que será importante também para as demais metrópoles brasileiras. "É hora de repensar a organização institucional das grandes cidades", dizia a cientista política Lucia Hippolito. Outro equívoco é ignorar que um programa de recuperação do Rio de Janeiro tem boa chance de dar certo. É verdade que, com o status de centro de decisão política, foram-se os grandes bancos e empresas do mercado financeiro, a bolsa de valores, e as maiores agências de publicidade.
Logo após, também, decidiram mudar sua sede para São Paulo empresas de peso, como a Companhia Siderúrgica Nacional e a Aracruz Celulose. No entanto, o Rio de Janeiro manteve vantagens importantes, com a concentrara centros de excelência de renome internacional, como a Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia da UFRJ e o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobras e diversas universidades de primeira linha.
Continuou, assim, a ser o principal destino turístico do Brasil e sediar cinco entre as dez maiores empresas do país, as principais companhias de petróleo (Petrobras, Ipiranga, Shell, Esso e Texaco), mineração, telecomunicações. A cidade possuía ainda o maior pólo de audiovisual do país. Eram setores que tinham efeito multiplicador. Exemplo recente foi a decisão da Rede Record, que tinha sede em São Paulo, de comprar os estúdios Renato Aragão para produzir suas novelas no Rio. O motivo natural era que a Rede Globo tem sua central de produções, o Projac, um mega-empreendimento que ocupa um terreno de 1,3 milhões de metros quadrados, onde se alojam fabrica de cenários, figurinos, modelos de cidades inteiras. Por causa da Globo, a esmagadora maioria dos atores e atrizes vive no Rio, onde também se localiza a maior parte da mão-de-obra especializada em produção para televisão. É vantajoso para quem é do ramo, portanto, instalar-se na cidade.
O derradeiro motivo era que, nos últimos dez anos, a economia fluminense vinha-se recuperando. Um levantamento feito pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro mostrava que estavam previstos mais outros investimentos no Estado da ordem de 33 bilhões de dólares, puxados pela indústria ligada ao petróleo. Isso significava que, se tinha sido prejudicada nos primeiros anos da fusão, em médio prazo a cidade do Rio de Janeiro iria se beneficiar, porque o interior estava se tornando mais próspero, deixando de ser um lugar que só despejava gente na cidade. "O ciclo da mudança da capital está se encerrando", resumia o senador e ex-prefeito do Rio, Roberto Saturnino (PT-RJ).
Evidentemente, o caminho era tortuoso.
Ao longo dos últimos 45 anos, o Rio de Janeiro acumulara uma quantidade enorme
de problemas cuja solução exige uma seqüência de administrações
competentes e afinadas com o mesmo plano de salvação. Achar uma saída para o
Rio também é uma boa oportunidade de repensar o pacto federativo brasileiro,
que divide mal e injustamente recursos e responsabilidades entre município,
estado e União e que, muitas vezes serve de justificativa para a incompetência
dos governantes das três esferas em enfrentar os problemas de forma positiva.
Fundamentalmente, no entanto, é importante perceber que o Rio continua sendo uma poderosa referência nacional e internacional e pode, por isso, ser o espaço privilegiado para projetar o Brasil que se deseja para o futuro. Diz o economista carioca José Alexandre Scheinkman, da Universidade Princeton: "Se o Rio de Janeiro começar a funcionar de novo, terá uma influência vital na construção de um Brasil melhor".
O Cristo Redentor
Deixamos por último para discorrer sobre uma evidência marcante do Rio de Janeiro - O Cristo Redentor. A sua estátua começou a ser planejada em 1921, quando foi organizada a "Semana do Monumento" - uma campanha para recolher contribuições dos católicos. No entanto, as doações só começaram 10 anos depois quando o Arcebisto Dom Sebastião Leme passou a coordená-la.
Construir o monumento não foi fácil. Como a execução da obra era impossível no Brasil, os desenhos foram levados para a França, aos cuidados do escultor polonês Paul Landowski. De volta ao país, as peças foram transportadas nos trens da Estrada de Ferro do Corcovado e montadas no alto do morro. O Cristo Redentor, considerado uma homenagem à religiosidade carioca, tornou-se um símbolo da cidade e da simpatia do povo carioca, que recebe a todos de braços abertos. Vale notar que a Estrada de Ferro do Corcovado foi a primeira rodovia eletrificada do Brasil. Inaugurada em 1884, é mais antiga do que o próprio monumento do Cristo Redentor. Aliás, foi o trem que durante quatro anos consecutivos, transportou as peças do Cristo.
Este famoso Monumento está de braços abertos em forma de cruz, voltada na direção de Botafogo. É o monumento mais alto do Rio, a 710 m de altitude; tem no total 38 m de altura (30 estátua + 8 pedestal), 26 m de envergadura e pesa 1.148 toneladas. O pedestal, em mármore negro, abriga uma pequena capela. Uma escada em caracol permite o acesso à cabeça e aos braços (não aberto aos visitantes). Construída pelo engenheiro Heitor da Silva Costa e pelo escultor Paul Landowski, sua inauguração ocorreu em 12 de outubro de 1931, com os 44 novos refletores instalados para as comemorações do 4º centenário da cidade (1965) ligados de Roma pelo Papa Paulo VI.
Recentemente, o nosso Cristo Redentor foi classificado como uma das SETE MARAVILHAS DO MUNDO.
BIBLIOGRAFIA
Além de livros e outras obras citadas diretamente no trabalho
aqui apresentado, foram consultadas mais as seguintes fontes:
- Coleção Nosso Século. Da Editora Abril Cultural.
- Portal do Cidadão, do Governo do Estado do Rio de Janeiro. - Internet
- O Rio de Janeiro através dos Jornais. - Internet
- Morro do Corcovado e Cristo Redentor - Internet
Novembro de 2005